REBELLION AND RESISTANCE IN THE IBERIAN EMPIRES, 16TH-19TH CENTURIES.

Tapuia*

Author: Felipe Garcia Oliveira

Affiliation: CHAM-NOVA FCSH

https://doi.org/10.60469/gwnk-vv20


Tapuia/Tapuya é uma palavra de origem tupi que significa “bárbaro”, referindo-se àqueles que eram de uma nação estrangeira (Almeida 2003: 49). No tupi sistematizado pelos padres da Companhia de Jesus, chamado de “língua geral”, o termo tapuia designava de forma ampla todos os povos que não falavam tupi e habitavam o interior brasileiro, também chamados de povos da “língua travada”. Nesse contexto, o termo não era um etnônimo, mas sim uma construção histórica colonial que, desde o início do século XVI, contrastava o ser tapuia com o ser tupi, adquirindo conotações pejorativas de suposta barbárie, selvageria e dificuldade de catequese em comparação aos tupis (Lowie 1946; Puntoni 1997; Monteiro 2001; Pompa 2003).
Há uma infinidade de relatos, crônicas, cartas e documentos que utilizaram este termo. Dentre as primeiras fontes, está a carta do padre jesuíta João de Azpilcueta Navarro, de 1555, descrevendo que, ao adentrar mais ao sertão, avistou os “Índios que chamam Tapuzas, que é uma geração de Índios bestial e feroz” (Navarro 1931: 148). Também podemos considerar o que escreveu o cronista Pedro Gandavo ao relatar que nas proximidades do “rio Maranhão da banda do oriente” existiam indígenas chamados de tapuias, e que diziam pertencer ou serem “pelo menos irmãos em armas” da nação Aymoré (Gandavo 1576: 45). Nesta mesma senda, o padre Nobrega de Anchieta também descreveu que nos “sertões” ficavam povos indígenas de nações com diversas línguas, que eram chamados de tapuias, que queria “dizer escravos, porque todos os que não são de sua nação os têm por tais e com todos têm guerra” (Anchieta      1931: 302). Contava ainda que os chamados tapuias eram povos que viviam pela costa brasileira, mas que migraram para os “sertões”. Sobre os seus hábitos, escreveu que tinham hábitos distintos, caçavam e tinham roças. O padre apresentava e distinguia, ainda que de modo sintético, que o termo tapuia fazia referência a nações diferentes (Anchieta 1931: 302).

Os cronistas, viajantes e padres, desde os séculos XVI e XVII, tinham conhecimento da grande diversidade existente entre os povos aos quais se referiam como tapuia. Assim, os relatos do século XVII também nos fornecem pistas sobre essas formulações genéricas e os modos de distinguir as várias etnias ameríndias. Gabriel Soares de Sousa afirmou que “os tapuias são tantos e estão tão divididos em bandos, costumes e linguagem” que “para se poder dizer deles muito, era de propósito e devagar tomar grandes informações de suas divisões, vida e costumes; mas, pois, ao presente não é possível” (Soares de Sousa 1851: 350). O padre Fernão Cardim ressaltou as diferenças linguísticas, mas classificou que o que unia os tapuias seria o seu ânimo selvagem e bravo. Para ele, “Todas estas setenta e seis nações de tapuyas que têm as mais dela diferentes línguas, são gente brava, silvestre e indômita, são contrárias quase todas do gentio que vive na costa do mar, vizinhos dos Portugueses” (Cardim 1925: 205).
Ainda que a noção de tapuia no século XVI e XVII não estivesse completamente vinculada à bestialidade ou à ferocidade, a descrição destes povos foi a de que eram todos canibais e impossíveis de serem cristianizados. O padre Antônio Vieira, por exemplo, ressaltava o caráter de “ignorância invencível” dos tapuias em relação à religião e aos costumes cristãos (Zeron 2019).  Os relatos do Padre Simão de Vasconcelos reafirmavam que tapuia era uma “nação genérica” para uma quantidade diferentes de povos que falavam mais de cem línguas. Dentre estes destacava os “Aymorés, Potentus, Guaytacás, Guaramonis, Goaregoares, Jecarussu, Amanipaqués, Payeás” (Vasconcelos, 1668: 153). Dentro dessas nações, que Gabriel Soares de Souza também reconhecia como entre os tapuias, os Aimorés foram tidos como os mais ferozes e inimigos, aqueles de completa incivilidade e bestialidade. O que o fazia refletir sobre a suposta não-humanidade desse grupo (Soares de Sousa, 1851: 58). Simão Vasconcelos também questionou a humanidade de alguns chamados tapuias, por seu hábito de comer a carne dos seus parentes recém mortos (Vasconcelos 1668: 77).

Ao descrever de forma ampla as características dos chamados tapuias, Simão Vasconcelos afirmava que eram “inimigos conhecidos de todas as mais nações de Índios: com estas, & ainda com algumas das suas, trazem guerras contínuas. E desta tão conhecida inimizade, lhe veio o nome de Tapuyas, que vão o mesmo que de contrários, ou inimigos” (Vasconcelos 1668:150). Alguns destes chamados tapuias foram descritos como “gente barbara, tragadora de carne humana, amiga de guerras, & traições: & por isto tratavam com eles com cautela nosso Exploradores” (Vasconcelos 1668: 47) Outros foram descritos, entretanto, como “gente mais doméstica, & também singulares comumente em não comer carne humana” (Vasconcelos      1668: 69). É possível recuperar ainda o relato de viagem de Roulox Baro no qual os Tapuias (da nação Tarairiú) são relatados como amigos dos Holandeses e inimigos dos portugueses durante o período da invasão holandesa (Baro 1979; Bel, Françozo, 2023).
Essa visão de bravos e de barbárie que foi sendo construída em comparação aos tupis pode ser verificada já nos dicionários do século XVIII. Rafael Bluteau definiu tapuia como “O mais bravo, & bárbaro Gentio do Brasil, na Capitania do Espirito Santo, & entre as Capitanias de Pernambuco, & do Rio de Janeiro. Chamaõlhe Tapuyas, que na sua língua val o mesmo, que Nação contraria; porque a todas as naçoens tem esta feyto insultos secretos, ou públicos, & he tida de todos por inimiga. Até com alguns povos da sua própria nação trazem guerras cõtinuas. Comprehendem os Tapuyas debayxo de si perto de hum cento de linguas differentes, & por conseguinte outras tantas especies, a saber, Aimores, Potentûs, Guaitacàs, Guaramomîs, Guaregoares, & seria cançar, contar todas” (Bluteau 1720: 47).

Ainda no que toca ao século XVIII, é interessante observar que no manuscrito de um dicionário de autoria anônima, umas das definições de Índio aponta que “Tapuya quer dizer Índio, e também bárbaro” (Diccionario da lingua geral do Brasil 1771: 89). E em um manuscrito de gramática da “língua geral”, o termo “Gentio” concordava com “Tapuya” (Gramática da Língua Geral do Brazil 1750: 301). Sabemos que o gentio era aquele que precisava ser cristianizado (Zeron 2019). Nesta mesma gramática, o termo “Sertão” é definido como “tapuytáma” (Gramática da Língua Geral do Brazil 1750: 275), que seria tapuia + (r)etama ‘nação’ (Barros, 2015). 
Desse modo, é possível afirmar que tapuia, enquanto uma construção colonial, foi sendo definido não apenas na oposição tupi/tapuia, manso/bárbaro, mas também no sentido de litoral/sertão (Pompa 2003). Construído em relação ao binômio sertão/vila, havia uma marcação dicotômica entre estes espaços e a sua relação com a civilização e a barbárie: um era habitado, tinha lei, governo e ordem, e o outro era desconhecido, sem rei, sem lei e sem fé. Neste sentido, a construção histórica que impôs o termo de tapuia aos que estavam no “sertão”, não domesticados, selvagens e incivilizados, fornecia elementos para estabelecer uma alteridade absoluta em relação aos indígenas (Puntoni      1997; Monteiro      2001; Pompa      2003). Essa alteridade fornecia bases para as expedições de interiorização colonial, legitimando a ação contra os sujeitos que não estavam integrados. Essa alteridade servia de fundamento para as expedições de interiorização colonial, legitimando a ação contra aqueles que não estavam integrados. À medida que a colonização avançava para o interior, os povos chamados tapuias se afastavam e, em diversas ocasiões, defendiam seus territórios. Nesse movimento, a “guerra” contra a “barbárie” tanto era legitimada a partir do discurso sobre os tapuias quanto contribuía para moldá-lo (Puntoni, 2002).

* Palavra com origem num idioma não dominante dos impérios ibéricos.


REFERÊNCIAS

Dicionários
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Fontes manuscritas
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Anônimo, Gramatica da Lingua Geral do Brazil. Com hum Diccionario dos vocabulos mais uzuaes para a intelligencia da dita língua, Pará, Biblioteca da Universidade de Coimbra, ms. 69, 1750. https://am.uc.pt/bib-geral/item/56551

Fontes impressas
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Baro, Roulox, Relação da viagem ao país dos tapuias (1647), tradução portuguesa do original francês, Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1979.

Cardim, Fernão, Tratados da terra e gente do Brasil, Rio de Janeiro, J. Leite & Cia, 1925.

Gandavo, Pedro de Magalhães, História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, Lisboa, na oficina de Antonio Gonsaluez, 1576. https://purl.pt/121 

Navarro, João de Azpilcueta, “Carta escrita de Porto Seguro a 24 de junho de 1555”, in Cartas Jesuíticas II, Cartas avulsas: 1550-1568, Rio de Janeiro, Officina Industrial Graphica, 1931. https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4676 

Sousa, Gabriel Soares de, Tratado descriptivo do Brazil em 1587, Rio de Janeiro, Typographia Universal de Laemmert, 1851.  

Vasconcelos, Simão de, Noticias curiosas, & necessarias das cousas do Brasil, Lisboa, Na Officina de Ioam da Costa, 1668.

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