REBELLION AND RESISTANCE IN THE IBERIAN EMPIRES, 16TH-19TH CENTURIES.

Tabanka*

Author: Lourenço Gomes

Affiliation: Universidade de Cabo Verde

https://doi.org/10.60469/3j2y-0957


A palavra tabanka não existe nos dicionários castelhanos e, nos portugueses, Bluteau referiu-o como tabanca, um termo originário do reino de Sião cujo significado “he como portagem, em que se registrão os que vão para a Cidade, & pagão alguns direytos, & costumes” (Bluteau 1728: t. VIII, 6253). Moraes Silva e Silva Pinto não referem o termo em nenhuma das duas grafias (Morais Silva 1789; Silva Pinto 1832). “Nos dicionários atuais da língua portuguesa ela é grafada com um "C" (tabanca). Nos dicionários das diferentes línguas crioulas ela é escrita com um "K" (tabanka)  (Trajano Filho 2013). Neste verbete, e seguindo a opinião deste autor, adota-se a última forma, já que ela sugere uma origem não portuguesa.
Etimologicamente provém das línguas do Atlântico Ocidental, ligada à raiz *abank(?) (Trajano Filho 2013). A sua acepção mais antiga remete para o conceito de aldeamento fortificado em territórios mandingas, balantas, bijagós e outros espaços na África Ocidental. Como explica este autor, no crioulo da Guiné, tabanka identificava apenas os aldeamentos nativos. Onde quer que se situassem, os núcleos urbanos onde residiam os portugueses ou os luso-africanos crioulizados eram designados praças (Trajano Filho 2013).
No século XV, no quadro da expansão marítima europeia, tabanka, foi mencionada enquanto processo de povoamento nas relações de Diogo Gomes (Pereira 1899). Outra referência já rastreada encontra-se no Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo Verde escrito em 1594 por André Álvares d'Almada, um comerciante cabo-verdiano que descreveu a costa ocidental africana. E voltou a ser usada 30 anos depois por André Donelha, outro mercador cabo-verdiano para identificar “muros com guaritas muito altas que cercavam as aldeias dos povos costeiros” (Trajano Filho 2013). 
A partir do século XVI, temos referências a tabanka em Santiago de Cabo Verde, como confraria católica (Barcellos Vol I, 2003: 157). Consolidou-se nesta ilha, onde ganhou, antes do século XIX, um novo significado – o de fenómeno cultural (Carreira, 1983: 83). Expandiu-se para a ilha de Maio e os festejos são hoje celebrados em maio e junho em ambas as ilhas. 
Alguns autores sinalizaram esta ressignificação, explicando que evoluiu “das ideias de proteção contra a violência e das atividades guerreiras (claramente associadas ao tráfico de escravos) em direção ao sentimento de calor e proximidade, característico do domínio doméstico, e à prática da sociabilidade associada às atividades que têm lugar nos circuitos familiares e nas relações de vizinhança” (Trajano Filho 2013).
Talvez o aspeto mais antigo da sua significação em Cabo Verde seja explicado pela vontade de os seus habitantes resistirem às dificuldades quotidianas de uma realidade social repleta de infortúnios, próprios das condições naturais do arquipélago ao longo da sua história. Segundo Semedo e Turano (1997: 99), essa evolução resultou também da incapacidade demonstrada pelas autoridades coloniais em minorar as dificuldades das populações locais. Desta forma, o conteúdo semântico de tabanka consolidou-se, seguindo a tradição das irmandades de devoção comum, com o sentido de forma de solidariedade. Ganhou, caráter mutualista para, na sua condição de confraria católica, ajudar a resolver os problemas de seus membros.

Se, por um lado, na sua forma corporativa e solidária, em Cabo Verde, foi mencionada pelas autoridades, em periódico oficial dos anos 30 do século XX, como festa do «vadio» que tem na sua essência e no seu rudimentarismo, uma finalidade mutualista (O Eco de Cabo Verde 1933), por outro, os mesmos poderes assinalam um sentido depreciativo. As rotulações negativas, traduziam o não reconhecimento da sua existência, o que originou, sistematicamente, a sua interdição pelas autoridades coloniais. Com efeito, o poder colonial classificava a tabanka como uma celebração ofensiva da moral pública (Monteiro 1948, 14-18). 
A sobrevivência da tabanka enquanto manifestação cultural de resistência é visível na própria cenografia dos festejos. As suas celebrações, muito ostentadas em cortejos, englobam por um lado, um código cénico de elementos europeus (vestes principescos, tambor – instrumento reinol e rituais religiosos cristãos), por outro lado, evidenciam um sincretismo entre os rituais devocionais católicos com caraterísticas originárias do continente negro tais como: rituais africanos, aos quais se acrescem o batuku, danças herdadas de tradições trazidas de África, trajes de cores vivas e a própria forma de fazer ecoar o tambor. Os cortejos geralmente culminam em convívio e comensalidade, o que provavelmente constitui uma herança que buscava fazer esquecer os infortúnios quotidianos. 
Alguns autores mencionam a evidente semelhança com outras práticas culturais-religiosas realizadas no Brasil (como a congada, em Minas Gerais, algumas irmandades religiosas formadas por “homens de cor” no Rio de Janeiro ou mesmo as folias de reis no sudeste brasileiro. Nesta linha de análise comparativa valeria a pena indagar se o fenómeno teve semelhança em algumas regiões da América do Sul onde o sistema escravocrata foi a base das suas sociedades.

* Palavra com origem num idioma não dominante das monarquias ibéricas.


REFERÊNCIAS

Dicionários
Bluteau, Rafael, Vocabulario portuguez e latino, áulico, anatómico, architectonico […],  Lisboa: Officina de Pascoal da Sylva, 8 vols, 2 supl., 1712-1728.

Nogueira, Gláucia, Cabo Verde & a Música - Dicionário de Personagens, Lisboa: Bertrand, 2016.

Pinto, Luiz Maria da Silva, Diccionario da Lingua Brasileira, Ouro Preto: Tipografia de Silva, 1832. 

Silva, António de Moraes, Diccionario da lingua portugueza - recompilado dos vocabularios impressos ate agora, Lisboa: Typographia Lacerdina, 1789.

Fontes impressas
Monteiro, Felix. 1948. "Tabanca: evolução semântica". Claridade, 6:14-18.
O Eco de Cabo Verde nº 3/6 de janeiro/33, Praia, Imprensa Nacional de Cabo Verde, 1933.

Pereira, Gabriel, «As Relações de Diogo Gomes», Boletim de Geografia de Lisboa, 17ª Série, nº 5. Lisboa: Imprensa Nacional, 1899.

Bibliografia
Barcellos C. de Senna, Vol I, Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2003.

Carreira, António, Migrações nas Ilhas de Cabo Verde, I.C.L., Praia: 1983.

Semedo, José Maria & Turano, Maria, Cabo Verde: O ciclo ritual das festividades da Tabanca, Praia, Spleen: 1997.

Trajano Filho, Wilson, «Flutuações semânticas no mundo atlântico», Mana 20 (2), Ago 2014, https://doi.org/10.1590/S0104-93132014000200005...