REBELLION AND RESISTANCE IN THE IBERIAN EMPIRES, 16TH-19TH CENTURIES.

Salvaje (ES) | Selvagem (PT)

Author: Felipe Garcia Oliveira

Affiliation: CHAM-NOVA FCSH

https://doi.org/10.60469/qj6v-4m74


O termo “Selvagem”/”Salvaje”, também grafada nos dicionários como “Salvagem/Salvajem/Salvage”, estava presente no vocabulário ibérico desde o período medieval. Nebrija registrou “Salvaje” como tradução do latim “Solivagus” e “Silvestris” (Nebrija 1495: 125). No início do século XVI, o termo fazia concordância com “Ferus”, também do latim, e com “savage” e “wild”, do inglês (Percival 1591: 163). No caso do português, teria concordância com três termos: em Cardoso, selvagem era o mesmo que “Agrestis” (Cardoso, 1562: 95v); Bento Pereira associava coisa selvagem com “Sylvestris” e “Rusticus” (Pereira, 1647: 86), sendo que o “Sylvester” concordava com “Cousa sylvestre, de mattos, de brenhas, & c. cousa brava, selvagem, montanheza, rustica, etc.” (Pereira 1697: 661).
No início do século XVII, verifica-se a associação de “Salvage” ou “Selvage” com “Solivago” ou “de selva”, todos definidos como: “Latin es el que anda solo, y fuera del comercío y policía” (Rosal 1611: 526). Marcando, neste sentido, como aqueles que não participavam do era entendido como vida civil. O dicionário de Covarrobias, de 1611, definia Salvaje como “todo lo que es de la montaña”, mas acrescenta que “apodria acontecer algunos hombres a ver se criado em algunas partes remotas, como en islas dehertas, aviendo aportado ali por fortuna, y gastado su ropa, andar desnudos, cubriedolos la mesma naturaliza con bello, para algun remédio suyo. Destos han topado muchos los que han navegado por mares remotos. Llamamos salvage al villano que sabe poco de cortesia” e “dixo se salvage de selva” (Covarrubias 1611: 1244). Assim, o termo “salvaje” carregava um duplo sentido: por um lado, vinculava-se à exclusão daquilo que se considerava “vida civil”, associando-se à rudeza e à falta de cortesia; por outro, remetia aos espaços dominados pela natureza, como as montanhas, as selvas, as regiões afastadas, e às pessoas que os habitavam. Essa definição teria longevidade, de modo que, no início do século XIX, o dicionário da Academia Real Espanhola definiu que Salvaje “aplicase á las plantas silvestres y sin cultivo, mas também entre los animales el que no es doméstico”, tal como “Se aplica al terreno montuoso, áspero, inculto” e ao “El natural de aquellas islas ó países que no tienen cultura ni sistema alguno de Gobierno” (Academia Real Espanhola, 1832: 673).

No século XVIII, o padre Rafael Bluteau remete o termo Selvagem ao Salvagem, que em sua definição, se chamava “metaforicamente” “a hum homem rude, áspero, vilão, rústico, de costumes bárbaros, etc.” (Bluteau 1720 vol 7: 457). Ao final do século XVIII, Esteban de Terreros y Pando definiu como “feroz, que no está domesticado”; “Los lobos, tigres, &c. son salvajes” (Terreros y Pando 1788: 431). 
O encontro entre povos indígenas e europeus implicou necessariamente uma relação de alteridade, uma vez que a realidade de seus universos se contrastava. No processo de colonização e na tentativa de legitimar a cristianização e o domínio sobre os territórios, os europeus elaboraram uma nova noção de “selvagem”, ao transpor e adaptar significados já existentes ao termo (Woortmann 1997; Goulão 2000). O mito do “homem selvagem”, presente na tradição europeia, foi então transplantado e ressignificado no contexto americano, passando a ser amplamente utilizado para designar os povos indígenas. Essa operação discursiva produziu uma construção ideológica e política que reforçava a distinção entre o que era considerado “civilizado” e o que não era, tomando como parâmetro a suposta superioridade da cultura cristã ocidental (Bartra 2011; Lestringant 2005).

Muito embora o termo selvagem pudesse, em certos contextos, adquirir uma conotação mais neutra ou até positiva, ao designar alguém que vivia em harmonia com a natureza, prevaleceu a associação à inferioridade em contraste com o ideal de civilidade cristã (Julio 2022). Nesse quadro, aqueles que se encontravam distantes dos padrões europeus de civilidade eram recorrentemente chamados de selvagens e convertidos em alvos potenciais da missão civilizadora e cristianizadora (Paiva 2015; Julio 2022). Em um relato de viagem do século XVII, por exemplo, o inglês Knivet comparou os ameríndios com o que ele considerava selvagem no espaço europeu. Por exemplo, em suas descrições sobre os indígenas, o viajante escreveu que alguns eram de “cabelos longos e negros, como os irlandeses selvagens” e, ao se referir aos nativos não cristianizados e aos seus costumes, foi taxativo quanto à sua “selvageria” (Knivet 1625: 77). As fontes escritas e iconográficas são abundantes nesse sentido. Nelas, os indígenas aparecem descritos como incivilizados, excessivamente ligados à natureza e resistentes ao aprendizado do cristianismo. Esses testemunhos não apenas refletiam percepções, mas também reiteravam e consolidavam a atribuição do caráter “selvagem” a esses sujeitos (Goulão 2000; Viveiros de Castro 2002).
No Brasil colonial, essa categorização assumiu ainda um uso específico. O termo índio selvagem podia qualificar os indígenas não aldeados ou que habitavam os sertões, longe dos centros citadinos, frequentemente identificados como “Tapuias”, “Bravos” e “bárbaros”. Tal designação servia muitas vezes como justificativa para sua escravização e submissão em regimes de servidão (Monteiro 1993; Hansen 1998; Zeron 2011). 
A atribuição das populações indígenas que não se curvavam às imposições coloniais como “selvagens” teve longa duração. Ela não apenas expressava a dificuldade e recusa dos europeus em reconhecer a alteridade, mas também funcionava como categoria política e moral, legitimando projetos de dominação, exploração da mão de obra e disciplinamento dos modos de vida. Ao mesmo tempo, essa classificação nunca deixou de ser tensionada: os indígenas, em diferentes contextos, resistiram às imposições ditas “civilizadoras”, recusando práticas, normas e formas de organização que lhes eram estranhas. Assim, a noção de “selvageria” deve ser compreendida tanto como construção discursiva europeia, destinada a justificar hierarquias coloniais, quanto como campo de conflito, no qual as respostas indígenas – da negociação à recusa aberta – revelam a agência desses povos frente às tentativas de enquadramento.


REFERÊNCIAS

Dicionários
Bluteau, Rafael, Vocabulario portuguez e latino, aulico, anatomico, architectonico, bellico, botanico, brasilico, com... / pelo Padre D. Raphael Bluteau, Lisboa, Na Officina de Pascoal da Sylva, 1712-1728. https://purl.pt/13969
    
Cardoso, Jerónimo, Dictionarium ex Lusitanico in latinum sermonem, Lisboa, ex officina Ioannis Aluari, 1562. https://purl.pt/15192

Covarrubias, Sebastián de, Tesoro de la lengua castellana o española, Madrid, Luis Sánchez, 1611. https://www.cervantesvirtual.com/obra/tesoro-de-la-lengua-castellana-o-espanola-0/

Henríquez, Baltasar, Thesaurus utriusque linguae hispanae et latinae, Barcelona, Typographia Conjugun Sierra y Marti, 1791. https://archive.org/details/ThesaurusHispanoLatinusUtriusqueLing/page/n5/mode/2up 

Nebrija, Elio Antonio de, Vocabulario español-latino, Ed. facsimilar de Madrid, Real Academia Española, 1951. https://www.cervantesvirtual.com/nd/ark:/59851/bmcvm466

Percival, Richard, Bibliothecae Hispanicae pars altera. Containing a Dictionarie in Spanish, English and Latine, Londres, John Jackson y Richard Watkins, 1591. https://books.google.pt/books?id=-coOHGU7XroC&printsec=frontcover&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

Pereira, Bento, Prosodia in vocabularium bilingue, Latinum, et Lusitanum digesta…, Évora, ex Typographia Academiae, 1697. https://purl.pt/30226

Real Academia Española, Diccionario de la lengua castellana por la Real Academia Española, Séptima edición, Madrid, Imprensa Real, 1832. https://apps.rae.es/ntlle/SrvltGUIMenuNtlle?cmd=Lema&sec=1.1.0.0.0 

Sobrino, Francisco, Diccionario nuevo de las lenguas española y francesa, Bruselas, Francisco Foppens, 1705. https://apps.rae.es/ntlle/SrvltGUIMenuNtlle?cmd=Lema&sec=1.1.0.0.0

Terreros y Pando, Esteban de, Diccionario castellano con las voces de ciencias y artes y sus correspondientes en las tres lenguas francesa, latina e italiana... Tomo tercero (1767), Madrid, Viuda de Ibarra, 1788. https://books.google.com.gt/books?id=7yU0LNL0F4UC&hl=es&lr=&num=20&source=gbs_book_other_versions_r&cad=3

Fontes manuscritas
Rosal, Francisco del, Origen y etymología de todos los vocablos originales de la Lengua Castellana. Obra inédita de el Dr. Francisco de el Rosal, médico natual de Córdova, copiada y puesta en claro puntualmente del mismo manuscrito original, que está casi ilegible, e ilustrada con alguna[s] notas y varias adiciones por el P. Fr. Miguel Zorita de Jesús María, religioso augustino recoleto, (1601-1611), Biblioteca Nacional de Madrid, 1611.

Fontes impressas
Knivet, Anthony, Vária fortuna e estranhos infortúnios de Anthony Knivet: memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007 [1625].

Bibliografia 
Bartra, Roger, El mito del salvaje, Cidade do México, Fondo de Cultura económica, 2011.

Cunha, Manuela Carneiro da, org., História dos Índios no Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 1992. 

Goulão, Maria José, “Do homem selvagem ao índio brasileiro: a construção de uma nova imagem da humanidade na arte europeia de Quinhentos”, in A Carta de Pero Vaz de Caminha: documentos e ensaios sobre o achamento do Brasil, Rio de Janeiro, Xerox do Brasil, 2000, pp. 173-195;

Hansen, João Adolfo, “A servidão natural do selvagem e a guerra justa contra o bárbaro”, in A. Novaes (org.), A Descoberta do Homem e do Mundo, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, pp. 347-373.

Julio, Suelen Siqueira, Gentias da terra. Gênero e etnia no Rio de Janeiro colonial, Niterói, Universidade Federal Fluminense (Doutorado em História), 2022. 

Marques, Guida, “Do índio gentio ao gentio bárbaro: usos e deslizes da guerra justa na Bahia setecentista”, Revista de História 171 (2014), 15-48. 

Lestringant, Frank, Jean de Léry ou lìnvention du savage. Essai sur l`Histoire dùn voyage fait en la terre de Brésil, Paris, H. Champion, 2005. 

Paiva, Eduardo França, Dar nome ao novo: uma história lexical da Ibero-América entre os séculos XVI e XVIII, Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2015.

Pennock, Caroline Dodds, On Savage Shores. How Indigenous Americans Discovered Europe, New York, Alfred A. Knopf, 2023.

Viveiros de Castro, Eduardo, “O mármore e a murta: sobre a inconstância da alma selvagem”, in Eduardo Viveiros de Castro, aut., A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia, São Paulo, Ubu Editora, 2017, pp. 157-228.

Woortmann, Klaas, O selvagem e a história. Primeira parte: os antigos e os medievais, Brasília, Universidade de Brasília, 1997.

Zeron, Carlos Alberto de Moura Ribeiro, Linhas de Fé: A Companhia de Jesus e a Escravidão no Processo de Formação da Sociedade Colonial, São Paulo, Edusp, 2011.