REBELLION AND RESISTANCE IN THE IBERIAN EMPIRES, 16TH-19TH CENTURIES.

Rechazo/Rechazar (ES) | Recusa/Recusar/Rejeitar (PT)

Author: Gustavo Velloso

Affiliation: Universidade Federal da Bahia

https://doi.org/10.60469/a76a-w025


Em português e espanhol, os substantivos “recusa” e “rechazo” são pouco frequentes nos dicionários modernos. Quando aparecem, ocupam espaço reduzido. São, porém, os verbos “recusar” e “rechazar” que em geral se manifestam. Bluteau (1728) definiu “recusar” como sinônimo de “não querer aceitar” (v. 7, p. 169) algo oferecido. Sua definição foi acompanhada nos séculos seguintes por Silva (1789) e Pinto (1832). Recusar e não aceitar é também o significado dado por Bluteau à palavra rejeitar (1728: vol. 7, 5553). E vale a pena assinalar que a tradução para castelhano deste vocábulo é rechazar. Nos textos de língua portuguesa, raramente a palavra adquire conteúdo político explícito. Exceção seja feita a Pereira (1697), que na transição para o século XVIII apresentou os vocábulos “recuzar” e “recuso” como sinônimos, atribuindo-lhes o sentido de “defender, contrariar a acusação” (p. 753). 
Já no idioma castelhano, desde o início do século XVII o verbo “rechazar” possui conotações políticas de destaque. Covarrubias o definiu como “no admitir alguna cosa, que es en nuestro perjuicio, y contradecirla” (Covarrubias 1611: 1211). No século XVIII, o substantivo “rechazo” se tornou mais frequente nos dicionários hispânicos. Terreros y Pando (1788, p. 299) atribuiu-lhe de maneira combinada os sentidos de “saltar, contradecir, repeler al enemigo” (militar) e “rebote, o hacer volver algún cuerpo por dar em outro” (mecânico). Tal combinação ecoou, ao longo do século XIX, em Núñez de Taboada (1825), Salvá (1846), Domínguez (1853), Gaspar y Roig (1855) e Zerolo (1895). 
Do século XVI ao XVIII, no âmbito do império espanhol, “rechazo” foi amplamente utilizado em contextos militares, para designar especialmente ações ou golpes de caráter reativo: “los indios dieron un mal rechazo en la cabeza a Pedro Mahate” (Aguado, 1916-1917, s/p.). Entretanto, na transição para o século XIX, tornou-se mais frequente a designação de uma escolha racional: “Rechazo la ley, que es lo que menos que puedo decir” (Anônimo, “Francia”, El Imparcial, 7 de fevereiro de 1822). 
Desde a década de 1980, a historiografia tem trabalhado com numerosos casos de recusa ao trabalho, contradição a ordens recebidas e/ou outras formas de defesa e práxis por parte dos grupos subalternizados na estrutura social dos impérios ibéricos.


REFERÊNCIAS

Dicionários
Bluteau, Rafael. Vocabulario portuguez, e latino [...], Lisboa, Officina de Pascoal da Sylva, 8 vols., 1712-1728.
Covarrubias, Sebastián de, Tesoro de la lengua castellana o española, Madrid, Luis Sánchez, 1611.

Domínguez, Ramón Joaquín, Diccionario Nacional o Gran Diccionario Clásico de la Lengua Española, Madrid-París, Establecimiento de Mellado, 2 vols., 1853.

Gaspar y Roig, Diccionario enciclopédico de la lengua española, con todas las vozes, frases, refranes y locuciones usadas en España y las Américas Españolas [...], Madrid, Imprenta y Librería de Gaspar y Roig, editores, 1855.

Núñez de Taboada, M., Diccionario de la lengua castellana, para cuya composición se han consultado los mejores vocabularios de esta lengua y el de la Real Academia Española, últimamente publicado en 1822; aumentado con más de 5000 voces o artículos que no se hallan en ninguno de ellos, París, Seguin, 2 vols., 1825.

Pereira, Bento. Prosodia in vocabularium bilingue, Évora, Tipographia Academiae, 1723 [1697].

Pinto, Luís Maria da Silva, Diccionario da lingua brasileira, Ouro Preto, Typographia de Silva, 1832.

Salvá, Vicente, Nuevo diccionario de la lengua castellana, que comprende la última edición íntegra, muy rectificada y mejorada del publicado por la Academia Española, y unas veinte y seis mil voces, acepciones, frases y locuciones, entre ellas muchas americanas [...], París, Vicente Salvá, 1846.

Silva, Antonio de Morais; Bluteau, Rafael, Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro, Lisboa, Simão Tadeu Ferreira, 2 vols., 1789. 

Terreros y Pando, Esteban de, Diccionario castellano con las voces de ciencias y artes y sus correspondientes en las tres lenguas francesa, latina e italiana [...], Madrid, Viuda de Ibarra, 1788.

Zerolo, Elías, Diccionario enciclopédico de la lengua castellana, París, Garnier Hermanos, 2 vols., 1895.

Fontes
Aguado, Fray Pedro de, Historia de Santa Marta y Nuevo Reino de Granada, Madrid, Establecimiento Tipográfico de Jaime Ratés, 1916-1917 (1538-1609).

Anônimo, “Francia”, El Imparcial, 7 de fevereiro de 1822.

Bibliografia
Frayne, David, El rechazo del trabajo: Teoría y Práctica de la Resistencia al Trabajo, Madrid, Akal, 2017.

Reis, João José, Ganhadores: a Greve Negra de 1857 na Bahia, São Paulo, Companhia das Letras, 2019.

Velloso, Gustavo, Ociosos e Sedicionários: Populações Indígenas e os Tempos do Trabalho nos Campos de Piratininga (século XVII), São Paulo, Intermeios, 2018.