REBELLION AND RESISTANCE IN THE IBERIAN EMPIRES, 16TH-19TH CENTURIES.

Pasquín (ES) | Pasquim (PT)

Author: Fernanda Olival

Affiliation: CIDEHUS-Universidade de Évora

https://doi.org/10.60469/gw9z-gj63


O vocábulo pasquim data talvez do final do século XV, inícios de quinhentos e tem origem italiana (pasquino). Pasquino correspondia a uma figura envolta em lenda. Seria um artesão de Roma que motejava de quem lhe passava pela porta. Uns dizem que seria um sapateiro, outros um barbeiro e ainda há quem considere tratar-se de um alfaiate, de um letrado, de um hospedeiro e até de um mestre de gramática. Depois da morte do referido artesão, escavando-se à sua porta apareceu a estátua de um torso mutilado, possivelmente de um gladiador helénico, do século III. Foi deixado, à superfície, junto à casa. Ali, passaram a colocar-se (ou aos pés ou ao pescoço) pasquinadas, ou seja, folhas de conteúdo satírico e jocoso. (Bluteau 1728, v2, 296) Tentavam atingir figuras políticas que não se podiam abertamente criticar, entre elas o papa. Em 1501 a estátua foi mudada para onde ainda hoje é possível vê-la, na Piazza di Pasquino, próximo da Piazza Navona.

Tanto em Portugal como em Castela, pasquim significou o mesmo: um texto anónimo, de crítica ou denúncia, afixado clandestinamente num lugar público, como a porta de uma igreja. Era frequente o pasquim ser manuscrito e escrito em versos. Um exemplo é o manuscrito Pasquim que se pós na porta da Capella Real no anno de 1663 (BNP, Cód. 589/30). Bluteau explica a relação dos pasquins com a crítica social, dizendo que são as “satyras, piques & pedradas, que ocultamente se dão as pessoas, de que se não pode dizer mal às claras” (Bluteau 1728: v 2, 286). O Diccionario de Autoridades descreve -o como “la sátyra breve con algum dicho agudo, que regularmente se fixa en las esquinas ó cantónes, para hacerla publica” (RAE 1737, t. V, 145).  Tanto o conceito como a prática estenderam-se a alguns espaços coloniais do mundo ibérico (Antunes & Figueiredo 2022; Cornejo Quesada 2012).
No século XIX, com a liberdade de imprensa, surgiram periódicos mordazes, com o título de pasquim ou dele derivado, pois aquela designação tornou-se um imediato sinónimo de crítica e oposição à ordem estabelecida.
A historiografia tem trabalhado os pasquins a propósito dos usos políticos e da crítica social a eventos e a personagens, explorando a sua relação com a emergência da opinião pública (Aichinger 2016; Bravo 1998; Pérez Martínez 1989; Ruiz Astiz 2016).


REFERÊNCIAS

Dicionários
Bluteau, Rafael, Vocabulario de synonimos, e phrases portuguezas, Supplemento ao Vocabulário Portuguez e Latino, II, Lisboa, Patriarcal Officina de Musica, vol. 2, 1728.

Real Academia Española (RAE); Diccionario de la lengua castellana, en que se explica el verdadero sentido de las voces, su naturaleza y calidad, con las phrases o modos de hablar, los proverbios o refranes, y otras cosas convenientes al uso de la lengua [...]. Compuesto por la Real Academia Española. Tomo quinto. Que contiene las letras O.P.Q.R. Madrid. Imprenta de la Real Academia Española, por los herederos de Francisco del Hierro. 1737.

Fontes
Pasquim que se pós na porta da Capella Real no anno de 1663. Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), Cód. 589/30.

Bibliografia
Aichinger, Wolfram, «La cara oculta de la opinión pública. Avisos, pasquines y cartas interceptadas en la corte española del siglo XVII», Memoria y civilización: anuario de historia, Nº 19, 2016, 17-49.

Antunes, Álvaro de Araujo; Figueiredo, Luciano (eds.), O pasquim do Calambau: infâmia, sátira e o reverso da Inconfidência Mineira, São Paulo, Chão, 2022.

Bravo, Paloma, «El pasquín: condiciones de escritura, difusión y recepción en la revuelta aragonesa de 1591», in El escrito en el Siglo de Oro: prácticas y representaciones / coord. por Agustín Redondo, Pedro Manuel Cátedra García, María Luisa López-Vidriero Abello,  Salamanca : [Paris], Ediciones Universidad de Salamanca ; Publications de la Sorbonne ; Sociedad Española de Historia del Libro, 1998, 33-42.

Cornejo Quesada, Carlos, «Los pasquines en el Perú (siglos XVIII y XIX)», Correspondencias & Análisis, Nº. 2, 2012, 187-199

Pérez Martínez, Lorenzo, «Inquisición, pasquines, lulistas y anitlulistas (1750)», Mayurqa: revista del Departament de CiènciesHistòriques i Teoria de les Arts, no 22 (1989), pp. 873–884.

Ruiz Astiz, Javier, «Pasquín escandalosísimo realmente": difamación y opinión pública en Navarra (1801-1833)», Clío & Crímen: Revista del Centro de Historia del Crimen de Durango, Nº. 13, 2016, págs. 233-268.